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23 de mai de 2017

Desdém


Sempre pareceu que era eu que queria ter demais. Ele sumia por dias, e quando reaparecia eu não conseguia dizer nada. Nunca soube lidar bem com meus sentimentos, passava pelos dias resolvendo meus problemas familiares sozinha, era como se eu fosse solteira e não tivesse ninguém com quem contar, um companheiro. Inclusive, eu ligava pra polícia, os vizinhos todos sabiam que meu pai agrediu minha mãe de novo, mas ele só ia ter ideia dois dias depois. Se eu me machucasse e precisasse da ajuda de alguém eu teria que pedir a um desconhecido qualquer - ele me afastou de todos os meus amigos e também não estava ali quando eu precisava. Não, ele não trabalhava, sempre foi desempregado - por isso precisava me roubar pra manter os vícios.

Eu queria alguém que deitasse comigo e me tocasse, me desse um carinho, um pouco de atenção. Alguém que simplesmente fique do meu lado pq me ama, e se sinta tão bem por estar comigo quanto eu.

Ele só dizia: - Eu estava dormindo. - Eu estava cheirando. - Fui ver os amigos.

E quando aparecia, eu colocava o salto alto e íamos pra rua. Pra ele ver os amigos, pra beber, fumar, cheirar, banguear, tudo que ele gostava - mas eu não. Quando me levou pra festa de rua perto de sua casa, viu uma garota e se escondeu. Demorei pra perceber que ele tava se escondendo de alguém, pq eu estava chapada. Só me toquei quando ela veio em nossa direção e ele fez a cara de quem viu um fantasma. Eles se falaram, beijinho na bochecha, "como você está?" O clima estava tenso e ela não falou comigo, só lançou aquele olhar do qual eu já me cansei e acostumei - é rotineiro me julgarem por minha aparência. Acho que a essa altura o leitor já se tocou do mesmo que eu - que eles tinham um caso.

Um dia ele me levou para um Motel. O mesmo sexo ruim. Ele deitou-se ao meu lado e foi trocar mensagens com a "namoradinha" do melhor amigo. Mensagens carinhosas (pq não pra mim? pq comigo é sempre tão rude e promíscuo e com ela você é doce?). E ele confirma que irá buscá-la na saída da escola de novo amanhã. Eu não sei o quanto você é ingênuo, leitor, mas para mim estava claro como a luz do dia que eles tinham interesse um pelo outro.

Sua melhor amiga que me chamava de ciumenta possessiva, gostava de conversar com ele sobre yaoi. Ela já soltou umas piadas para o namorado dela e meu ex - que eles podiam se pegar, são fofos juntos, sempre brincando. Um dia eles beberam juntos e ela falou algo que hoje já não me lembro bem o que foi, mas insinuava um ménage.

Deve ser realmente difícil ter tempo para mais de uma mulher.

A esperança é o que destrói a alma. Como eu acreditava que tudo ia mudar num passe de mágica? E eu achava que o problema era comigo. Que eu estava fora de moda. Se eu não tivesse ele eu não teria mais ninguém. Eu sentia tanto medo da solidão, eu tinha tanto medo de morrer e ninguém ficar sabendo até os vizinhos sentirem um cheiro pútrido. Não sei pq eu tinha medo disso, eu já estaria morta afinal. Mas todos queremos que alguém lamente por nós no final.

"Só fique aí parado e me veja queimar
Tudo bem
Porque eu gosto de como dói
Só fique aí parado e me ouça chorar
Tudo bem
Porque eu adoro como você mente"


Eu me perdoei por errar. Eu me perdoei por ter insistido tanto tempo. Eu estou de bem comigo mesma e eu me perdoei por todos os meus erros. Afinal, o que esperar de uma depressiva psicótica que se corta? O que poderia superar a dor de viver com meu pai? E com isso eu carreguei um relacionamento abusivo por tanto tempo, eu estava tão vulnerável e ele se aproveitou de minha fragilidade de todas as formas possíveis. Eu não quero saber se ele é doente também, ele não devia fazer isso comigo. Nada justifica o que ele fez a mim.

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