12 de set de 2016

Reflexões de Uma Feminista


Impossível afirmar que não existe desigualdade de gênero no Brasil e que o machismo persiste até mesmo entre nós, mulheres. Tudo o que direi aqui não tem nada de científico, mas nestas percepções há 82 anos de experiência. Acho que não é coisa para se desprezar.

Sempre tive horror, pavor ou coisa pior quando alguém fala: "seja macho". Até mulheres dizem isto. Lembro-me também de que o ser humano foi criado como "macho e fêmea", mas as palavras ganham novas significações ao longo do tempo. Vejamos: imaginem alguém me dizendo "seja fêmea!" - talvez até de forma involuntária, confesso, minha mão daria uma bofetada na cara do(a) interlocutor(a).

Homem e mulher são nomenclaturas muito mais palatáveis, mas ainda assim incompletas. Por vezes, são maldosas. Já ouvi frases como: "ah, ele precisa ser homem, porque mesmo sendo gay... sei lá, ele deve continuar a ser homem". Como assim "SEI LÁ"? As pessoas devem ser honradas, honestas, dignas. A palavra é mantida não se a pessoa for "homem" ou "mulher" de verdade, e sim se tiver caráter.

No mais, gênero não se confunde com orientação sexual, como no exemplo acima: se o homem é homossexual, parece-me óbvio que sim, ele é homem. Idem para a mulher. O problema é que somos levados a simplificar demais o mundo, como se existisse apenas uma lógica binária a reger-nos. Isso é tão antigo quanto a humanidade: as pessoas são "boas" ou "más". Tudo bem... eu pergunto: digam-me o nome de uma pessoa que só praticou bondades ao longo de toda sua vida e nunca, mas nunca mesmo foi má (nem em pensamento). As pessoas más, também elas, nunca fizeram nada de bom na vida?

Talvez citem Madre Teresa de Calcutá, Chico Xavier, Mãe Menininha do Gantois, São Francisco de Assis, ou então Hitler, Mussolini, Lúcifer, Jair Bolsonaro, etc. No entanto, percebam que dá para contar nos dedos alguém que seja marcadamente (e não inteiramente) bom ou mau. Se nem em nossa personalidade e caráter somos regidos por essa lógica binária (que é maniqueísta), por que seria diferente com o gênero?




Força, fibra, coragem, dignidade, enfim, independem de gênero e orientação sexual - que, como disse, são questões distintas. No entanto, perdoem-me, mas se chegar o dia em que uma genitália conseguir definir o gênero de alguém... é para morrer. Desde tempos imemoriais existem pessoas que carinhosamente chamo de "trans", pois elas "transcendem" aquilo que poderia ser denominado como masculino e feminino.

Apesar de todo o mau humor de minha avó, disso ela entendia: já tive uma prima que, aliás, foi morta covardemente há muitos anos. Nasceu com genitália masculina, mas sempre se viu como mulher (e não havíamos sequer ouvido falar em cirurgia de redesignação sexual na década de 1940: tudo ainda estava bem no início e nada era divulgado nos jornais ou rádios, a não ser como "aberração").

Minha avó teve a grandeza de acolher a neta em casa após ser expulsa da residência de minha tia. Mais ainda: minha avó perguntou "que tipo de gente" era minha tia, por expulsar de casa a própria filha. Minha tia (filha da vó Rosa) disse que receberia de braços abertos o seu "filho", quando "resolvesse voltar a ser homem". Minha avó Rosa não sabia ler ou escrever, mas mesmo assim propôs à minha tia (que era alfabetizada) escrever mil vezes "eu não sou mulher". A tia disse que isso não via sentido nisso, e minha avó então ensinou: "você pode escrever, registrar, documentar, colocar lá no cartório que não é mulher... mas você é. Não pense que para a sua filha isso é menos difícil. Ela pode até ter 'as coisas' do homem, mas isso aí é coisa de macho. Não é coisa de homem. Macho ou fêmea qualquer cachorro, gato, porco ou onça pode ser. Mulher e homem, isso apenas nós podemos ser".


Por sorte pude aprender muito com minha avó. Sempre que chega a data do aniversário dela, confesso, fico mais sensível (será daqui três dias). Ela mesma foi vítima do machismo: meu avô João devia ser uns 35 anos mais velho que ela. Durante minha infância e adolescência lembro-me que todos baixavam a cabeça para minha avó e nem mesmo a criticavam pelas costas, porque meu avô não gostava muito de falar e dizia: "sigam o que a Rosa diz".

Embora meu avô fosse considerado "frouxo" por delegar sua autoridade à esposa, ele pouco discordava da minha avó - mas, quando discordava, dizia. Às vezes discutiam, mas nunca chegaram a gritar um com o outro. O tratamento entre eles era muito respeitoso. Minha avó fez tudo o que pôde e talvez até um pouco mais, enfim, para que seu marido não morresse... não apenas porque gostava dele com muita sinceridade, mas em boa dose por imaginar o que o futuro lhe reservava.

Bastou meu avô morrer para que minha avó passasse a ser tida como velha caduca, sem memória, "viúva histérica" e coisas similares. A credibilidade da minha avó baseava-se na existência de um homem. Que mundo é esse? A vó Rosa sempre foi mulher de opinião própria e de tomar decisões sem consultar ninguém. Do dia para a noite, com menos de 60 anos de idade, passou a ser "esclerosada" pelas posições que defendia. Hoje eu acompanho a discussão sobre todos esses temas no mundo e vejo que minha saudosa avó, nascida em 1882, analfabeta até o dia de sua morte, viúva de um escravo alforriado, já difundia o pensamento de vanguarda que existe hoje no mundo.

 

Minha avó não era um símbolo de modernidade, é claro. Havia muitas limitações, e a principal delas era a de ser uma mulher do século XIX. A única "ousadia" que ela praticou ao longo da vida foi misturar a religião católica com o candomblé, chegando ao ponto de falar "Nossa Senhora" e "Oxum" nos lugares errados, mas sempre se referindo à mesma e correta pessoa.

Oxalá, minha avó! Tenho certeza de que seu espírito ainda ronda muitos lugares por aí, sempre ao lado de qualquer pessoa negra, gay, mulher (incluindo as trans) que esteja sofrendo. O que de melhor há em mim eu dedico não apenas à minha mãe e ao meu pai (seu filho "teimoso, turrão, burro feito uma porta"), mas também à senhora.

Salve, Rosa Maria!

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